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ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE
DIREITO AERONÁUTICO E ESPACIAL
 

 

O que eu vi e aprendi no Curso de Verão
do Centro Europeu de Direito Espacial

Daniël Konrad Link *

A indústria espacial colhe os benefícios do processo de inclusão espacial[1], e da atual e crescente dependência da sociedade a sistemas e tecnologias espaciais (navegação, telecomunicações e sensoriamento remoto, por exemplo).

Entretanto, poucos países possuem a tecnologia necessária para desenvolver, construir e lançar objetos operacionais ao espaço, ou mesmo depois, usufruir deste sistema de forma sustentável.

Chegou-se a um ponto sem retorno: sem os sistemas lançados ao espaço e suas respectivas estações em terra, não é mais possível sustentar e empreender as iniciativas em termos de transporte, negócios e informação que constituem o mundo globalizado.

Pela indispensabilidade a seu desenvolvimento, mais e mais governos de países emergentes adquirem satélites, serviços e produtos advindos de atividade no espaço exterior – com toda esta receita sendo gerada, há também uma tendência: as empresas, regiões e países que já desenvolveram sua indústria espacial, têm forte alcance e relevante domínio de mercado, ou domínio de grande parcela de mercado por um determinado e crucial período de tempo.

Por haver demanda global e fornecimento localizado em apenas certas regiões – é possível que: a) pequeno número de empresas detenha grande parcela do mercado, b) considerem este fator ao estipular sua margem de lucro, c) estejam naturalmente menos dispostas a transferir determinados tipos de conhecimento e tecnologia.

A indústria espacial europeia[2], por exemplo, desde 2003 tem experimentado um crescimento em vendas de componentes, estruturas e serviços espaciais. Vendas a) para clientes institucionais (públicos) europeus: sua mais importante parcela econômica e estrategicamente (exemplo: Agência Espacial Européia/ESA, Comissão Européia, CNES, DLR). E b) em vendas comerciais e para exportação. A exportação inclui empresas privadas não-europeias e clientes institucionais de países que não integram a União Europeia (UE), nem são membros da ESA. Por exemplo L’Agence Spatiale Algérriene (ASL – Agência Espacial Argelina), o Instituto de Pesquisa aeroespacial da Coreia (KARI) dentre outros.

Em 2010, 54% das vendas foram para clientes institucionais europeus, 24% das vendas foram para empresas privadas Européias e 22% para exportação. E no segmento de sistemas de telecomunicação, em 2010, o valor total das vendas para exportação superou o valor angariado com clientes Europeus.

Em vendas finais, a indústria espacial europeia, em 2010, teve o crescimento de 9,3% comparado a 2009. Em vendas para entidades públicas (clientes institucionais) europeias, de 2005 a 2010, houve crescimento de aproximadamente 10,31%; enquanto no mesmo período de 2005 a 2010, houve crescimento de aproximadamente 64% em vendas comerciais e para exportação. Números que evidenciam o fato da inclusão espacial carregar soluções econômicas e financeiras, hoje de extrema necessidade.

Neste cenário, entendendo a posição de liderança conquistada pela existência de um setor industrial abrangente – capaz de oferecer serviços de lançamento, partes e sistemas para lançamento, satélites e sistemas de telecomunicação, satélites e sistemas de observação da Terra, satélites e componentes para navegação, satélites ou componentes com propósitos científicos, partes de infraestrutura para vôos tripulados, produtos para experimento em microgravidade, estações em terra, teste de sistemas e outros –, os países Europeus têm investido seriamente na capacitação de profissionais para atuar na indústria espacial. Tanto nas áreas de engenharia, tecnologia de materiais, informática e ciências exatas em geral, como nas áreas de política e direito espacial, decisões estratégicas e gerenciais.

Em 1989, por iniciativa da Agência Espacial Europeia e suporte de alguns pioneiros na área, criou-se o Centro Europeu de Direito Espacial (ECSL – European Centre for Space Law). Para executar suas atividades, o ECSL recebe da ESA um orçamento anual.

Uma das suas iniciativas é o Curso de Verão em Direito e Política Espacial. Desde 1992, é realizado uma vez por ano em diferentes Universidades (1992, Messina/Itália; 1993, Toulouse/França; 1994, Granada/Espanha; 1995, Aberdeen/Reino Unido ... 2010, Jaén/Espanha e a vigésima edição em 2011, Rijeka/Croácia).

O formato de diferentes cidades cada ano é para estimular contato de diferentes Universidades na Europa com o direito e política espacial.

O curso tem programa intensivo de duas semanas. A edição de 2011 em Rijeka, Croácia, foi realizada de 29 de Agosto a 9 de Setembro. O curso é estruturado em: a) lectures/aulas com professores de extrema competência, citando alguns: Vladimir Kopal, Sergio Marchisio, Armel Kerrest de Rozavel, Niklas Hedman, Bernhard Schmidt-Tedd. E b) um projeto (simulation of an International Call for Tenders) em que os estudantes são divididos em grupos/times e cada time deve formular, escrever e apresentar sua proposta.

Em 2011, o vigésimo curso contou com 36 estudantes e quatro tutores. O papel dos tutores é orientar os estudantes na elaboração do projeto/proposta. Foram divididos em sete grupos: seis grupos com cinco estudantes cada e um grupo com seis estudantes.

Foram abordados diversos temas como: história e evolução do direito espacial e fontes do direito espacial; ESA: estrutura, orçamento, propósito, processo de decisão, cooperação internacional, etc; Convenção sobre Responsabilidade Internacional por Danos Causados por Objetos Espaciais (1972); licença e autorização via legislação nacional; parcerias público-privadas; o Tratado de Lisboa e a competência da União Européia na Política Espacial Europeia; voos tripulados e o Acordo sobre o Salvamento de Astronautas (1968); Acordo que Regula as Atividades dos Estados na Lua e em Outros Corpos Celestes (1979); características da Eutelsat; características da União Internacional de Telecomunicações (UIT); fontes de energia nuclear no espaço exterior; aspectos jurídicos dos contratos no setor espacial; aspectos jurídicos sobre o turismo espacial; aspectos jurídicos da Estação Espacial Internacional dentre outros.

O objetivo do curso é preparar e inserir profissionais na indústria espacial europeia, ou em organizações que com a indústria espacial tenham algum tipo de relação comercial, institucional e/ou jurídica. Por exemplo: na Comissão Europeia, na ESA, agências nacionais (CNES, DLR), ministérios nacionais (defesa, transporte, ciência e tecnologia), grandes grupos como EDAS, Thales Alenia Space, operadores de satélites e et cetera.

Com o trabalho em grupos (call for tenders), a meta é, através de simulação dinâmica e realista, estimular o processo de brainstorming, estimular a independência dos alunos, a capacidade de controlar seu próprio tempo, inovar e redigir propostas.

Na simulação cada grupo foi responsável em formar uma empresa de consultoria e propor a representantes da ESA e da União Europeia um sistema ainda não existente. A Proposta: “após Galileo e GMES (Global Monitoring for Environmentand Security; Monitoramento Global de Meio Ambiente e Segurança), elabore e proponha novo projeto espacial para a Europa, a fim de fortalecer e intensificar a política espacial comum da Europa e as relações entre ESA e União Européia”[3]

Em Rijeka, o prêmio de melhor projeto foi concedido ao grupo que propôs a construção de um elevador espacial na Guiana Francesa; o segundo lugar coube ao grupo que se propôs construir e lançar uma constelação de satélites para rastrear dejetos espaciais e objetos espaciais em funcionamento, montar um mapa das trajetórias, velocidade, localização de cada objeto, para futuros satélites realizarem manobras/esquiva automática se em rota de colisão.

Houve também a proposta de construção e lançamento de satélites para captar energia solar destinada a uso na Terra (space based solar power). E proposta para estabelecer um serviço de voo suborbital ponto-a-ponto para transporte comercial de pessoas.

Em cada projeto, os estudantes deviam considerar aspectos técnicos, jurídicos (incluindo controle de exportação, patentes, licença e autorização para lançamento, contratos), políticos, de governança, consórcio industrial, de seguro, de segurança internacional, orçamentários, comerciais e econômicos, entre outros.

Cada grupo foi orientado a manter sua proposta em confidencial até o último momento. E trabalhar como em uma competição, sabendo que firmas de consultoria concorrentes também apresentarão bons projetos. Após entregar a proposta escrita, cada grupo apresentou oralmente seu trabalho diante de uma banca de professores.

Esta experiência também propicia aos alunos a chance de identificar a existência da indústria espacial europeia, e as empresas atuantes mediante a necessidade de sugerir integrantes para um consórcio industrial.

A estrutura do curso busca estimular, então: a) a capacitação acadêmica com as lectures/aulas; b) a criação de um ambiente de competição, sigilo e perfeccionismo; c) o estabelecimento de um clima de trabalho altamente multicultural, com a participação ativa de pessoas de diferentes origens, idiomas e backgrounds; d) a realização de um trabalho prático de consultoria capaz de convencer a banca examinadora (clientes/ESA/UE) da viabilidade do seu projeto.

* Membro da Associação Brasileira de Direito Aeronáutico e Espacial (SBDA) e de seu Núcleo de Estudos de Direito Espacial (NEDE), onde expôs sua experiência com relação ao curso do ECSL, do qual foi aluno em época recente e agora atuou como tutor, orientando os estudantes.

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Referências:

[1] Inclusão Espacial, ver: MONSERRAT FILHO, José. A Inclusão Espacial. Revista de Direito Aeronáutico e Espacial – SBDA. Rio de Janeiro, no. 90, mar. 2007, disponível em http://www.sbda.org.br/revista/Anterior/1787.htm.  “Mais do que nunca é chegada a hora de abrir caminho a uma terceira fase da Era Espacial: a da inclusão e participação de todos os países, sobretudo nas atividades espaciais indispensáveis ao desenvolvimento de cada um deles. Governos e empresas terão muito a fazer nela. É preciso que cada país construa uma infra-estrutura mínima – de equipamentos e de pessoal especializado – para capturar, processar, analisar e utilizar as imagens de satélite em seus planos e políticas de desenvolvimento econômico, social e cultural, [...]

[2] Estatísticas sobre indústria espacial europeia, Fonte: www.eurospace.org , Eurospace – the Association of Space Industry

[3] ACHILLEAS, Philippe. A Third Space Project for Strengthening European Space Policy. European Centre for Space Law.Rijeka, agosto 2011.

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Veja as fotos: 

Corpo discente

Corpo docente e discente

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Veja também:

Ideias para fortalecer a Política Espacial Europeia

 

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