A r t i g o
Aprovada a proposta brasileira de cooperação para cada país ter competência no uso de dados de satélite em benefício do desenvolvimento nacional sustentável
José Monserrat Filho *
O Comitê das Nações Unidas para o Uso Pacífico do Espaço (Copuos, na sigla em inglês) aprovou por consenso, em 15 de junho de 2006, a proposta do Brasil intitulada "Cooperação Internacional na Promoção do Uso de Dados Geoespaciais para o Desenvolvimento Sustentável" como novo ponto de sua agenda de debates, que inclui um plano de trabalho de três anos (2007-2009).
Órgão da Organização das Nações Unidas (ONU), o Copuos foi criado em 1959, dois anos depois do início da Era Espacial, marcado pelo lançamento em órbita do primeiro satélite feito pela espécie humana, o Sputnik I, da ex-União Soviética, no dia 4 de outubro de 1957.
Seu objetivo é desenvolver programas de cooperação internacional no estudo e no uso pacífico do espaço exterior. Ele estimula pesquisas e dissemina informações sobre o assunto, além de discutir as questões políticas e jurídicas que emergem das atividades espaciais, permitindo a elaboração de tratados, convenções e recomendações a respeito.
O Copuos é o mais alto fórum intergovernamental para o exame, a avaliação e a regulamentação das atividades espaciais para fins pacíficos. As questões do uso do espaço para fins militares são de competência da Conferência da ONU sobre Desarmamento, com sede em Genebra, Suiça.
O Copuos tem dois subcomitês: o técnico-científico e o jurídico, que se reúnem, respectivamente, em fevereiro e abril, trabalhando de forma coordenada. Os estudos e decisões dos subcomitês são levados à reunião plenária do Copuos, realizada geralmente em junho.
A secretaria permanente do Copuos é o Escritório das Nações Unidas para Assuntos do Espaço Exterior (OOSA, na sigla em inglês), a quem também cabe implementar as decisões da Assembléia Geral da ONU relacionadas à promoção da cooperação internacional no uso pacífico do espaço e à prestação de assistência aos países em desenvolvimento.
O Copuos tem a seu crédito a discussão, redação e apovação dos cinco tratados internacionais hoje em vigor e as seis declarações da Assembléia Geral da ONU, que hoje configuram o Direito Espacial Internacional (1), ramo do Direito Internacional Público.
Dos 191 membros da ONU, 67 integram o Copuos atualmente. O Brasil sempre foi membro do Copuos. E, em geral, dos mais ativos.
A delegação brasileira anunciou as linhas gerais de sua proposta na reunião do Subcomitê Jurídico em abril deste ano, mas optou por apresentá-la na reunião plenária do Copuos (de 5 a 16 de junho). Isso lhe daria mais tempo para ampliar as consultas a outros países e assim obter um largo e sólido apoio o que de fato foi alcançado.
A idéia central é estabelecer o reconhecimento internacional para duas premissas básicas: 1) a criação em cada país de competência (leia-se equipamentos e pessoal especializado) para receber, processar, analisar e usar dados de satélite tornou-se fator indispensável a qualquer programa nacional de desenvolvimento; e 2) a cooperação internacional tem papel essencial na criação dessa competência, em apoio ao esforço nacional.
Assim, a competência para captar, preparar e usar adequadamente os dados geoespaciais sem os quais, hoje, não se pode falar em autêntico desenvolvimento nacional precisa deixar de ser considerada como luxo ou bem exclusivo de alguns países tecnologicamente avançados e ganhar o atestado internacional de recurso imprescindível a todos e a cada um dos países na tomada de decisões em políticas públicas, programas de C&T, educação e inovação, planos industriais, agrícolas e comerciais, nos negócios de empresas públicas e privadas.
Convém alertar, entretanto, que a luta política em torno desse tema está apenas começando no seio da ONU. Seu êxito, seguramente, vai depender em grande parte do empenho conjunto e sistemático da maioria dos países, em geral pobres e subdesenvolvidos. Muitas empresas dos países desenvolvidos certamente têm grande interesse em vender seus equipamentos, o que, sem dúvida, é positivo. Ocorre que competência tecnológica ligada a metas de efetivo desenvolvimento nacional sustentável, em qualquer atividade, não costuma ser atingida facilmente, sem forte determinação do governo e das forças vivas de cada país, bem como habilidosa capacidade de negociar a defesa de seus interesses.
Seja como for, a aprovação da proposta brasileira é fato de enorme relevância, na medida em que abre oportunidades inestimáveis para se propagar e consolidar o princípio da universalização da competência nacional no uso das informações geoespaciais.
O plano trienal de trabalho, previsto na proposta, possibilida ampla exposição do problema, por parte dos mais diferentes países, organizações e empresas interessadas. Vale lembrar que, já no primeiro ano, importante espaço será oferecido a entidades como a Agência Espacial Brasileira (AEB) e ao Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) para apresentações de suas considerações, demandas e idéias a respeito. Será de todo oportuno enfatizar que a conquista da comptência nacional em qualquer área da ciência e tecnologia pode e deve ser tanto produto quanto produtor de atitudes e ações inovadoras e criativas.
Como autor da proposta, o Brasil tem o dever moral de se preparar com esmero para um desempenho exemplar e convincente.
Apresentamos, a seguir, o texto da proposta brasileira aprovada no Copuos, em tradução não-oficial, para análise dos interessados no Brasil, que podem sugerir medidas para ela alcançar sua real concretização:
"A capacidade de usar informações geoespaciais é fundamental para uma série de atividades com impacto direto sobre o desenvolvimento nacional. O monitoramento ambiental, o gerenciamento de recursos naturais, a meteorologia, a prevenção e a mitigação de desastres naturais, a criação de sistemas cartográficos nacionais para fins de planejamento territorial são apenas alguns exemplos de como os dados geoespaciais passaram a desempenhar papel indispensável na promoção do desenvolvimento nacional sustentável.
A cooperação internacional tem papel proeminente a desempenhar na promoção dessa capacidade. A experiência dos países que emergiram nas últimas duas décadas como usuários efetivos de dados geoespaciais constitui razão convincente para expandir a cooperação internacional nessa área. Apesar disso, a maior parte do globo ainda carece de competência institucional, tecnológica e humana para se beneficiar do uso de dados geoespaciais.
A comunidade internacional deve considerar caminhos e meios de fomentar a disseminação dessa competência, tendo em vista alcançar sua verdadeira universalização.
Com esse fim, o Brasil submeteu ao Comitê para o Uso Pacífico do Espaço Exterior a proposta de apreciar, em suas próximas três reuniões, um novo item na agenda, intitulado 'Cooperação Internacional na Promoção do Uso de Dados Geoespaciais para o Desenvolvimento Sustentável'. O principal objetivo da proposta é o de estimular a cooperação internacional no estabelecimento da infra-estrutura nacional de dados espaciais necessária para captar, processar, analisar e aplicar informações geoespaciais, como importante instrumento na conquista do desenvolvimento nacional sustentável.
Ao discutir o tema, o Comitê poderá estudar e aprender a partir das atividades já realizadas nesse campo por países, organizações regionais e/ou multilaterais e outras entidades. Reconhecendo e valendo-se de tais experiências passadas e presentes, o Comitê estará em melhor posição para propor recomendações mais amplas e integradas no sentido de se alcançar a universalização dessa competência.
Recentes experiências em países em desenvolvimento têm sugerido também que esses países possuem um mercado considerável de serviços e produtos relacionados ao uso de dados geoespaciais. Tal mercado, porém, permanece em larga escala não explorado, devido a deficiências em termos de conhecimento e competência. Pode-se esperar nesse contexto, que a cooperação internacional para a construção da competência nacional no uso de dados geoespaciais tenha impacto significativo sobre as atividades de empresas que desenvolvem e operam aplicações espaciais, ampliando a demanda por seus serviços e produtos.
Um esforço internacional concertado para a criação de competência nacional no uso de dados geoespaciais poderá ter efeitos que vão além do setor privado. Muito tem
se discutido e realizado no que se refere à cria-ção de sistemas de observação da Terra, tanto no nível regional e quanto no global. O impacto positivo do estabelecimento de tais sistemas sobre a capacidade humana de entender e lidar com uma série de desafios globais tem sido amplamente reconhecido. Esse, sem dúvida, é um esforço bem-vindo, ao qual a comunidade internacional deve seguir dando o seu apoio.Tem emergido, entretanto, um crescente reconhecimento de que a eficácia dos sistemas de observação da Terra no trato desses problemas globais depende, igualmente, de um esforço consistente de integração da comunidade de usuários de cada país a tais sistemas, superando deficiências institucionais, tecnológicas e humanas que dificultem esse objetivo.
A implementação dos sistemas internacionais e regionais de observação da Terra tem, portanto, uma dimensão nacional própria, que deve merecer o reconhecimento e a atenção do Copuos.
Como último ponto, o Comitê poderá também montar um acervo de informações sobre as atividades realizadas dentro do sistema das Nações Unidas relacionadas a essa importante questão e considerar formas de salientar os vínculos existentes entre tais atividades e os meios de conferir a elas um reconhecimento internacional mais vigoroso.
O plano de trabalho plurianual que deverá orientar as discussões a respeito deste novo item da agenda inclui:
2007
Apresentações de Estados membros e observadores, organizações internacionais e regionais, e grupos de coordenação informal sobre suas respectivas atividades relacionadas à informação geoespacial para o desenvolvimento sustentável.
Aqui podem ser incluídos os Centros Regionais das Nações Unidas de Educação em Ciência e Tecnologia Espaciais, o GEO (Group on Earth Observations, Ceos (Committee on Earth Observation Satellites), Unesco, FAO (Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação) etc.
2008
Apresentações de especialistas sobre experiências relacionadas com o estabelecimento de infra-estrutura nacional apropriada para a coleta, processamento e aplicação de dados geoespaciais, incluindo o treinamento de recursos humanos, infra-estrutura técnica, exigências financeiras e arranjos institucionais.
Apresentação de especialistas sobre as atividades de criação de competência e seu impacto no mercado internacional de serviços e aplicações na área da observação da Terra.
2009
Avaliação das atividades em-preendidas dentro do sistema das Nações Unidas diretamente relacionadas ao uso de informações geoespaciais para o desenvolvimento sustentável, e exame de caminhos para salientar os vínculos existentes entre tais atividades e o propósito de dar a elas um reconhecimento internacional mais consistente.
Elaboração de um relatório contendo recomendações sobre os procedimentos e meios de fomentar a cooperação internacional com vistas à criação de infra-estrutura nacional para o uso de dados geoespaciais."
----------------------------------
* Vice-Presidente da Associação Brasileira de Direito Aeronáutico e Espacial (SBDA), editor do "Jornal da Ciência", da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), membro da diretoria do Instituto Internacional de Direito Espacial, membro da Academia Internacional de Astronáutica e do Comitê Espacial da Internacional Law Association (ILA). E-mail: monserrat@alternex.com.br
(1) Veja os tratados e declarações nos sites www.sbda.org.br (em português) e www.unoosa.org/oosa/en/SpaceLaw/index.html (em inglês, francês, russo, chinês e espanhol).