Pode um país colonizar a Lua?
José Monserrat
Filho, Chefe da Assessoria de Cooperação
Internacional da Agência Espacial Brasileira (AEB)
Acaba
de revelar-se que há algo em comum entre os anos de 1865 e
2012. Em ambos, proclamou-se nos Estados Unidos (EUA) um
voluntarioso plano para se estabelecer um Estado americano
no satélite natural da Terra, a Lua, situada bem perto de
nós, a cerca de 380 mil km.
Em 1865, o
escritor francês Júlio Verne (1828-1905), aclamado como
visionário e precursor da ficção científica, lançou o livro
“De la Terre à la Lune” (Da Terra à Lua[1]),
narrando a irônica história do “Clube do Canhão”, com sede
em Baltimore, Estado de Maryland, EUA. Fora criado ao longo
da Guerra de Secessão (entre o Norte liberal e o Sul
escravagista) por veteranos oficiais heróis da Artilharia.
Mas deixemos o próprio Júlio Verne contar:
“Muitos ficaram
no campo de batalha, e seus nomes constavam no livro de
honra do Clube do Canhão. Dos que voltaram, quase todos
traziam a marca da indiscutível bravura. Muletas, pernas de
pau, braços articulados, mãos de gancho, maxilares de
borracha, cabeças com pedaços de prata, narizes de platina,
nada faltava à coleção. E o já citado Pitcairn [perito em
estatística] também calculou que no Clube do Canhão não
havia um braço para quatro pessoas e somente uma perna para
cada seis.
“Mas os valentes
artilheiros não se importavam com isso e ficavam orgulhosos
quando o boletim da guerra destacava que o número de vítimas
havia sido dez vezes maior do que a quantidade de projéteis
atirados.
“Um dia, porém,
triste e lamentável dia, a paz foi assinada pelos
sobreviventes da guerra, as detonações foram cessando aos
poucos, os morteiros se calaram, os obuses receberam uma
mordaça, os canhões voltaram para os arsenais, as balas
foram empilhadas, as lembranças sangrentas se apagaram, os
magníficos algodoeiros começaram crescer nos campos
adubados, as roupas de luto foram eliminadas juntamente com
a dor da perda, e o Clube do Canhão mergulhou numa
inatividade profunda. (…)
“– É desolador –
suspirou uma noite o bravo Tom Hunter, enquanto suas pernas
de pau queimavam na lareira.
“– E não existe
nenhuma perspectiva de guerra! – disse o famoso J. T. Maston
[inventor de um “extraordinário morteiro”], coçando a cabeça
com mão de gancho.”
Diante de tamanho
descalabro, em que “pairava sobre o clube a ameaça de
dissolução”, o Presidente Impey Barbicane, “um homem
de 40 anos, calmo, frio, austero e de temperamento
inquebrantável”, “nortista colonizador... um ianque dos pés
à cabeça”, convocou as centenas de associados e disse a eles
ter pesquisado se “dentro da nossa especialidade, não
poderíamos realizar uma grande experiência digna do século
XIX”. “E, com meus estudos, adquiri a convicção de que
teremos sucesso numa operação que pode parecer impraticável
a qualquer outro país... Esse projeto é digno de vocês, é
digno do Clube do Canhão e terá repercussão mundial.” E
anunciou: “Conquistaremos a Lua, que se juntará aos Estados
que formam o nosso grande país!”
O projeto
consistia em construir nada menos que um gigantesco canhão
(de 68 mil ton), o maior de todos os tempos, para lançar
três corajosos “viajantes” à Lua.
Não revelarei
como terminou a insólita experiência, para não furtar do
leitor a prazer de ler até o fim o famoso livro de Júlio
Verne.
Desta alegórica e
divertida ficção do século XIX, passemos, num salto de 147
anos, a uma não menos alegórica e divertida realidade do
século XXI.
No final deste
janeiro de 2012, Newt Gingrich, pré-candidato republicano a
presidente dos EUA, em plena campanha, não só prometeu criar
até 2020 uma base dos EUA na Lua, como, em especial, previu
que “quando houver 13 mil americanos vivendo na Lua, eles
poderão fazer uma petição para que [o assentamento] vire um
Estado americano”.[2]
Em 1865, a
hipótese de os EUA fundarem um Estado na Lua até poderia ser
política e legalmente admissível, embora não houvesse a mais
ínfima possibilidade tecnológica e financeira para tanto.
Já em 2012, – há
mais de 40 anos, portanto, daquele inesquecível dia 19 de
junho de 1969 quando os primeiros astronautas americanos
pisaram na Lua – é bastante constrangedor para um homem
público, sobretudo americano, ignorar o Tratado do Espaço[3],
de 1967, que proíbe os países de se adonarem do espaço
exterior e de qualquer corpo celeste, a começar pela Lua.
Esse acordo foi aprovado por unanimidade pela Assembleia
Geral das Nações Unidas e já ratificado por mais de 100
países envolvidos com programas espaciais, inclusive os EUA.
Eis o texto
oficial do Art. 2º do Tratado do Espaço: “O Espaço cósmico,
inclusive a Lua e demais corpos celestes, não poderá ser
objeto de apropriação nacional por proclamação de soberania,
por uso ou ocupação, nem por qualquer outro meio.”
Diante deste
princípio jurídico internacional obrigatório, como acreditar
que um grupo de cidadãos de um país – por mais numeroso que
seja – possa ser considerado como legalmente competente para
sequer solicitar a transformação de seu assentamento lunar
em Estado ou Província de seu Estado de origem?
O pré-candidato
republicano Newt Gingrich parece não saber ou prefere
desprezar o princípio hoje reconhecido universalmente de que
o espaço cósmico e os corpos celestes (Lua, Marte e todos os
outros) não podem pertencer a nenhum país e a ninguém – são
o que já o Direito Latino considerava “Res communis
omnium”, ou seja, coisas de uso comum, acessível a
todos.
É claro que todos
os países, inclusive os EUA, podem estabelecer um
assentamento na Lua, segundo o Art. 1º do Tratado do Espaço,
que determina: “O espaço cósmico, inclusive a Lua e demais
corpos celestes, poderá ser explorado e utilizado livremente
por todos os Estados sem qualquer discriminação, em
condições de igualdade e em conformidade com o direito
internacional, devendo haver liberdade de acesso a todas as
regiões dos corpos celestes.”
Explorar (que, no
caso, significa estudar, conhecer profundamente) e utilizar
os recursos da Lua – as duas ações não habilitam nenhum país
ou empresa a tornar-se dono, proprietário, soberano da área
do assentamento lunar. Tanto que o já mencionado Art. 2º,
logo a seguir, consagrou o princípio da não-apropriação.
Em se tratando de
regulamentar as atividades dos Estados na Lua, há que
considerar, além do Tratado do Espaço, o Acordo da Lua[4],
aprovado por aclamação pela Assembleia Geral das Nações
Unidas, em 1979, inclusive com o voto favorável dos EUA, mas
que conta hoje com apenas três assinaturas e 13
ratificações. Os países com mais destaque nas atividades
espaciais não ratificaram esse acordo, entre eles os EUA.
Mesmo assim, sua longa discussão (cerca de 10 anos) e
parcial adoção representam uma experiência muito rica que
não pode ser deixada de lado no momento em que se retomarem
as negociações para a ampla regulamentação específica ainda
pendente sobre como os países poderão explorar, coletar e
utilizar os recursos lunares – algo que talvez comece a
ocorrer dentro de 20 a 30 anos.
De qualquer
forma, não há a mínima indicação de que a comunidade
internacional venha um dia a concordar com a eliminação do
princípio da “não-apropriação” do espaço e dos corpos
celestes. Isso representaria um retrocesso à época da
formação dos impérios coloniais, que, felizmente, já estão
no museu da história.
Daí o ridículo
que soa hoje pregar a criação de uma colônia ou de um Estado
na Lua.
Referências
[1]
Verne, Júlio, Da Terra à Lua; tradução e adaptação de
Maria Alice de Sampaio Dori. São Paulo: Editora
Melhoramentos, 2005.
[2]
Folha de S. Paulo, 28 de janeiro de 2012, p. A16.
[3]
Tratado sobre Princípios Reguladores das Atividades dos
Estados na Exploração e Uso do Espaço Cósmico, inclusive
a Lua e demais Corpos Celestes, aberto à assinatura em
27 de janeiro de 1967, em vigor desde 10 de outubro do
mesmo ano; e ratificado pelo Brasil em 5 de março de
1969 [disponível
aqui].
[4]
Acordo que Regula as Atividades dos Estados na Lua e em
Outros Corpos Celestes, aberto à assinatura em 18 de
dezembro de 1979, em vigor desde 11 de julho de 1984;
não assinado, nem ratificado pelo Brasil
[disponível aqui].